quinta-feira, 3 de março de 2011

Pense e reflita a Crônica

A crônica de hoje é :

Nunca deixe para falar amanhã o que se pode falar hoje


Sempre gostei de ouvir as pessoas que têm mais experiência que eu. Só que às vezes é difícil ouvir quando a tristeza bate forte no coração.
Nunca fui de ficar em casa nos finais de semana, tinha que, pelo menos, ir a algum lugar. Num desses dias tristes e sem vontade de sair de casa, me levantei de manhã, peguei minha bike e fui tomar café da manhã em Domingos Martins, região serrana do Espírito Santo.
Chegando à cidade, procurei uma padaria para tomar meu café. Logo depois, na Praça Arthur Gerhardt, aquela praça central em frente à igreja luterana, linda como sempre e mais linda ainda no inverno, me sentei em um banco.
Sem esperar, um senhor veio até meu encontro, sentou do meu lado e perguntou:
- Meu jovem, por que está tão distante de casa?
- Senhor, como sabe que não sou daqui?
- Moro neste lugar desde que nasci, conheço todos que moram nesta cidade, e com essa roupa, definitivamente você não é daqui!
Realmente, esse senhor tinha razão. Olhando para os lados e vendo todos em minha volta, não vi nenhum jovem, homem ou mulher, com uma roupa de lycra.
- O senhor está certo, não sou daqui. Nasci e moro em Vitória.
- Você veio de bicicleta de lá?
- Sim!
Começamos uma conversa. O senhor, sem parar e com entusiasmo de um garoto, continuou a perguntar e falar.
A conversa realmente estava muito boa, nem vi a hora passar. Como um senhor que sempre morou na mesma cidade pode ter tanta vivência para compartilhar?
O mais impressionante de tudo é que ele também sabia ouvir.
Pedi desculpas ao senhor e me despedi.
- Meu jovem, não precisa pedir desculpas, pode partir, tem um longo caminho até sua casa. Quando chegar, procure a mulher que te deixou pensativo e converse com ela.
- Como o senhor tem tanta certeza que foi uma mulher?
- Garoto, minha vida sempre foi em uma cidade pequena, mas isso não quer dizer que minha experiência é como ela.
Saí da cidade com aquelas palavras em meus pensamentos. Depois de um banho gelado, realmente me fez muito bem conversar abertamente com minha menina naquela noite.
Aquela semana demorou a passar. Impressionante como uma amizade, que abriu meus olhos, me fez tanta falta.
No final de semana seguinte, peguei minha bike e fui novamente para aquele banco. Não pensei na cidade ou na praça, a única coisa que veio em minha mente era poder tomar um café preto e sentar naquele banco, conversar e ter certeza que alguém me ouviria.
Novamente encontrei aquele simpático senhor, conversamos e naturalmente a amizade crescia.
Voltei para o tumultuado mundo da cidade grande. Sabemos que Vitória não é tão grande assim, mas em comparação a algumas cidades, Vitória é bem grande e a vida nela poder ser corrida.
Não podia deixar de pensar em como é interessante aprender com alguém que sabe o que realmente a vida pode proporcionar.
Já para o final de semana seguinte, mudei meus planos e fui viajar de bike com uns amigos para Colatina. Nunca pedalei em um dia tão quente, o ar gelado das montanhas estava me fazendo falta.
Chegando em casa, estava muito cansado e fiquei pensando em tudo que vivi naquele dia. Sempre prestei atenção em tudo o que acontecia em minha volta, isso me fez ser diferente de algumas pessoas da minha idade.
No próximo final de semana, tive que trabalhar.
- Neste final de semana vou até Domingos Martins, falei comigo mesmo, olhando no fundo dos meus olhos, enquanto me olhava no espelho.
Nunca consegui mentir enquanto olhava nos olhos de uma pessoa. Por isso mesmo pensei: se me prometer algo dessa forma, quem sabe tento não me enganar. Afinal de contas, pedalar tantos quilômetros e, sozinho, no domingo de manhã, nem sempre é fácil.
Chegando o domingo, peguei minha bike, pedalei bem rápido e, com a respiração ofegante, cheguei a Domingos Martins.
Peguei meu café, num copo descartável, numa padaria próxima à praça e fui logo, sem perder tempo.
Chegando lá, fiquei olhando de um lado para o outro, procurando meu novo amigo. Naquele domingo, o dia estava nublado e frio. Quase ninguém estava na cidade, parecia que ela estava mais triste.
Percebi que depois de boas conversas com aquele senhor, não sabia seu nome.
- Como posso perguntar a alguém se o viu se nem o nome dele eu sei?
Vi um homem, que poderia ser meu pai, sentado no banco da praça. O mesmo banco que sentei e conversei com aquele senhor que tanto me ensinou.
- Com licença, senhor?
Perguntei se ele tinha visto o senhor com quem tinha tido boas conversas alguns finais de semana atrás.
- Como foi que disse que era o senhor que procura?
- É um senhor alto, cabelos brancos, usava um suspensório e camisa branca com um chapéu de palha, respondi.
- Garoto, por que está brincando comigo desse jeito?
Não entendi do que aquele homem estava falando, mas percebi que tinha os olhos cheios de lágrimas. Então tentei explicar, da melhor forma possível, como conheci aquele senhor que parecia ter pelo menos uns 80 anos.
- Garoto, esse senhor que está descrevendo é meu pai.
Perguntei na mesma hora:
- Qual o nome dele e onde está agora?
- Garoto, meu pai morreu já faz dois anos. E não sei como, mas todas as conversas que teve com ele é exatamente o que esperei ouvir daquele velho minha vida toda.
Com os olhos cheios de lágrimas, aquele senhor me levou até sua casa, me apresentou para todos na família como um amigo de seu pai.
Seus filhos, ou seja, os netos daquele senhor que tanto me ensinou, vieram até mim como se eu fosse dar a eles uma presença de que tanto sentiam falta. Falei do avô deles como se falava de um herói.
Tive o melhor almoço, com pessoas estranhas, de toda a minha vida. O impressionante naquilo tudo era que para eles eu não era um estranho, era um amigo, um garoto que contou para eles o que queriam ouvir de seu ente querido.
O filho do meu amigo me olhava com tanto entusiasmo, mas em nenhum momento teve coragem de contar à sua família que eu tinha conhecido seu pai há algumas semanas. Quem iria acreditar?
Saí daquela casa me sentindo uma pessoa da família. E um detalhe, o nome daquele senhor era Miguel. Quem sabe um anjo para minha vida ou para sua família.
Fui pra casa e naquele fim de domingo não tive coragem de sair do meu quarto.
Nunca imaginei viver uma experiência daquela magnitude.
 Senti vontade de visitá-los novamente, mas tive medo de fazer isso e alguém achar que contava mentiras, e acabar degradando a imagem que aquela família tem daquele senhor.
Alguns anos depois, fui a um acampamento na cachoeira Matilde, que é linda, por sinal. E naquela noite, sentamos em volta da fogueira, juntando todos que ali acampavam. E começamos a contar estórias.
Uma delas chamou minha atenção. Uma jovem garota, que parecia ter uns 15 anos, começou a contar aquela minha experiência. Percebi, naquele momento, que aquela menina deveria ter uns oito anos quando conheci sua família.
Ouvi cada palavra com muita atenção. Mas, o momento final me surpreendeu. Ela disse com uma voz firme e com bastante confiança no que falava:
 - No final daquele dia, aquele garoto saiu da casa do meu avô e nunca mais ninguém o viu. Meu pai perguntou ao meu avô quem era aquele garoto e meu avô respondeu que aquele garoto era um amigo de infância do pai dele.
- Meu pai insistiu perguntando como era possível. E meu avô respondeu a ele que se ele não conseguisse entender naquele momento, que esperasse, então, alguns anos. Nunca mais ninguém irá ouvir falar daquele menino novamente.
Naquele momento senti vontade de chorar. Engoli minhas lágrimas e percebi que todos em volta daquela fogueira também faziam o mesmo.
Percebi que, por algum motivo, minha decisão de me afastar foi a melhor coisa que poderia ter feito.
Não sei como realmente era aquele senhor e não sei como explicar como o conheci naquelas circunstâncias, mas não poderei esquecer tudo que aprendi com ele. E não poderia desmanchar aquela fantasia que tanto estava fazendo bem àquela garota, e imagino que também para toda família.

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